Quem começa a vender peças impressas em 3D costuma olhar só para o filamento: “gastei 60 gramas, então custa R$ 6”. O problema é que o filamento é a menor parte da conta. Se você cobra apenas o material, o dinheiro some em energia, desgaste da impressora, peças que dão errado e, principalmente, no seu tempo. Este guia mostra cada componente do custo, como combiná-los e como transformar o resultado em preço de venda.
Os componentes do custo
1. Filamento
É o mais fácil: peso da peça (em gramas, incluindo suportes, saia e torre de purga se houver) dividido por 1.000 e multiplicado pelo preço do quilo. Use o peso que o fatiador informa, não o peso da peça pronta, porque suportes e descartes também foram pagos.
Fórmula: peso (g) ÷ 1.000 × preço do kg.
2. Energia elétrica
Multiplique a potência média da impressora (em kW) pelas horas de impressão e pela tarifa do kWh da sua conta de luz. A potência varia durante a impressão: o aquecimento inicial consome mais, depois cai. Se você não tem um medidor de tomada, um valor médio entre 100 W e 200 W é um ponto de partida razoável para impressoras comuns de mesa, mas medir a sua é sempre melhor.
Fórmula: potência (W) ÷ 1.000 × horas × tarifa do kWh.
3. Desgaste da impressora
A impressora tem um preço e uma vida útil limitada: correias, bico, mesa e ventoinhas se desgastam. Divida o valor pago pela vida útil estimada em horas para obter um custo por hora de uso, e multiplique pelas horas da peça. A vida útil é uma estimativa sua; o importante é ter um número e revisá-lo com a experiência.
Fórmula: valor da impressora ÷ vida útil (h) × horas de impressão.
4. Taxa de falha
Nem toda impressão sai boa. Descolou da mesa, entupiu o bico, acabou o filamento no meio: a peça vai para o lixo e o material, a energia e o desgaste foram gastos mesmo assim. Quem vende precisa embutir essa perda no preço das peças boas.
A forma mais simples é aplicar um percentual sobre o custo de máquina (filamento + energia + desgaste). Se você perde 1 em cada 10 impressões, use 10%. Repare que a falha incide sobre o custo de máquina, e não sobre a mão de obra: o seu tempo de preparação e acabamento é cobrado uma vez por peça entregue.
5. Mão de obra
Fatiar, preparar a mesa, tirar a peça, remover suporte, lixar, pintar, embalar, responder o cliente. Estime quanto tempo cada peça realmente exige do seu trabalho (não do tempo de máquina, que corre sozinha) e multiplique pelo valor da sua hora. Esse é o item mais esquecido e o que mais transforma “hobby que paga o filamento” em renda de verdade.
Do custo ao preço: margem
Com o custo total em mãos, aplique a margem de lucro. Aqui está uma armadilha comum, que explicamos nos erros abaixo: a margem usada na calculadora é um acréscimo sobre o custo. Margem de 50% significa preço = custo × 1,5.
Exemplo completo
Uma peça de 60 g, que leva 3 horas para imprimir e 30 minutos do seu trabalho. Valores usados:
- Filamento: R$ 100,00 o quilo
- Impressora de 150 W, energia a R$ 0,90 o kWh
- Impressora de R$ 2.500,00, vida útil estimada de 5.000 horas
- Taxa de falha de 10%
- Sua hora vale R$ 20,00
- Margem de 50% sobre o custo
Os cálculos:
Os valores são arredondados na exibição, então a soma das linhas pode diferir em um centavo do total, que é calculado com os números completos (energia, por exemplo, é R$ 0,405 antes de arredondar).
Veja o que o exemplo mostra: o filamento, que parecia ser “o custo”, representa cerca de um terço do custo total. A mão de obra sozinha pesa mais que o material. Quem cobrasse só os R$ 6,00 de filamento venderia abaixo do custo real de R$ 18,70.
Erros comuns
Confundir margem com acréscimo. Acrescentar 50% sobre o custo (R$ 18,70 → R$ 28,04) não é o mesmo que ter 50% de margem sobre o preço. Nesse exemplo o lucro de R$ 9,35 representa cerca de 33% do preço final. Se você pensa em “quero que o lucro seja metade do que recebo”, o acréscimo necessário seria de 100% sobre o custo. Escolha uma definição e use sempre a mesma.
Esquecer taxas e frete. Marketplaces cobram comissão sobre o preço e embalagem e envio têm custo. A calculadora não inclui esses itens: some-os ao seu raciocínio antes de fechar o preço final.
Ignorar a taxa de falha. Mesmo com impressora bem calibrada, materiais novos e peças complexas falham mais. Comece com 5% a 10% e ajuste conforme o seu histórico real.
Não cobrar o próprio tempo. Se a sua hora vale zero na conta, o preço parece competitivo, mas você está trabalhando de graça.
Usar o peso da peça pronta. Suportes, saia e descartes contam. Use o peso que o fatiador informa para a impressão inteira.
Nunca revisar os números. O preço do filamento, a tarifa de energia e a vida útil da impressora mudam. Reveja seus parâmetros de tempos em tempos.
Por onde começar
Anote os cinco números do seu cenário (preço do quilo, potência, tarifa, valor e vida útil da impressora) e a sua taxa de falha e valor da hora. Depois, para cada peça, você só precisa do peso, do tempo de impressão e do tempo de trabalho. Na calculadora deste site basta digitar esses valores para ver o custo e o preço de venda por peça e por lote, e eles ficam salvos no seu navegador para a próxima vez.